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João Augusto de Lima Rocha¹

Segundo Umberto Eco, é mais fácil saber-se, do ponto de vista prático, o que é o não-fascismo do que, propriamente, o fascismo, por conta das excepcionais propriedades miméticas de que se reveste. Por isso, na perspectiva de identificação dos sinais de reinstalação do fascismo no mundo, e a fim de combatê-lo, ele introduz a noção de fascismo eterno, ou Ur-fascismo que, segundo assevera, ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis.

Com fascista, recomenda-se que não se discuta. A atitude adequada, diante de um fascista, é isolá-lo do povo. Fascista é para ser isolado, porque a primeira regra para combater o fascismo é evitar que ele se instale na sociedade, pois, para revertê-lo, após se instalar, é sempre muito difícil, a não ser que se faça uso da violência das armas, naturalmente com grande sacrifício para os setores mais desprotegidos da sociedade.

Daí é que Eco, cuja infância e parte da juventude foi passada sob o fascismo de Mussolini, introduz a categoria do Ur-fascismo, algo equivalente a fascismo eterno. Para se livrar da imprecisão de conceitos, o notável ensaísta e romancista italiano realizou uma palestra sobre o tema na Universidade Columbia, Nova Iorque, em 1995, numa solenidade alusiva aos 50 anos da liberação da Europa das agruras do nazifascismo. Ele se propôs a identificar as 14 principais facetas anunciadoras da invasão sub-reptícia do fascismo sobre o mundo, em qualquer época, em qualquer lugar.

De acordo com Eco: “Seria muito confortável para nós se alguém surgisse na boca de cena do mundo para dizer: ‘Quero reabrir Auschwitz, quero que os camisasnegras desfilem outra vez pelas praças italianas!’. Ai de mim, a vida não é fácil assim! O Ur-Fascismo pode voltar sob as vestes mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o indicador para cada uma de suas novas formas — a cada dia, em cada lugar do mundo”.

Resolvi aproveitar sua contribuição, “O Fascismo Eterno” (publicada no livro Cinco Escritos Morais, tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record, 2002), na expectativa de que, ao compreender bem essas 14 facetas, possamos melhor combater o fascismo.

Acredito que o momento em que estamos, no Brasil, seja muito propício à escalada do fascismo. Por isso, estejamos atentos, particularmente nas escolas, para desmontar movimentos do tipo Escola sem Partido, revertendo esse lema protofascista, ao construir e difundir seu oposto, isto é: Escola sem Fascismo. Para isso, as reflexões de Umberto Eco, expostas sumariamente a seguir, são certamente muito úteis. Quase literalmente, são as seguintes as reflexões de Umberto Eco:

1. A primeira característica de um Ur-Fascismo é o culto da tradição. O tradicionalismo é mais velho que o fascismo. Não somente foi típico do pensamento contra reformista católico depois da Revolução Francesa, mas nasceu no final da idade helenística como uma reação ao racionalismo grego clássico.

A gnose nazista nutria-se de elementos tradicionalistas, sincretistas ocultos. A mais importante fonte teórica da nova direita italiana, Julius Evola, misturava o Graal com os Protocolos dos Sábios de Sião, a alquimia com o Sacro Império Romano. O próprio fato de que, para demonstrar sua abertura mental, a direita italiana tenha recentemente ampliado seu ideário juntando De Maistre, Guenon e Gramsci é uma prova evidente de sincretismo.

2. O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. Tanto os fascistas como os nazistas adoram a tecnologia, enquanto os tradicionalistas em geral recusam a tecnologia como negação dos valores espirituais tradicionais. Contudo, embora o
nazismo tivesse orgulho de seus sucessos industriais, seu elogio da modernidade era apenas o aspecto superficial de uma ideologia baseada no “sangue” e na “terra” (Blut und Boden). A recusa do mundo moderno era camuflada como condenação do modo de vida capitalista, mas referia-se principalmente à rejeição do espírito de 1789 (ou 1776, obviamente). O iluminismo, a Idade da Razão eram vistos como o início da depravação moderna. Nesse sentido, o UrFascismo pode ser definido como “irracionalismo”.

3. O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. A ação é bela em si, portanto, deve ser realizada antes de qualquer tipo de reflexão. Pensar é uma forma de castração. Por isso, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas. Da declaração atribuída a Goebbels (“Quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola”) ao uso frequente de expressões como “Porcos intelectuais”, “Cabeças ocas”, “Esnobes radicais”, “As universidades são um ninho de comunistas”, a suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-Fascismo. Os intelectuais fascistas oficiais estavam empenhados principalmente em acusar a cultura moderna e a inteligência liberal de abandono dos valores tradicionais.

4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas. O espírito crítico opera distinções, e distinguir é um sinal de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade científica percebe o desacordo como instrumento de avanço dos conhecimentos. Para o Ur-Fascismo, o desacordo é traição.

5. O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade. O Ur-Fascismo cresce e busca o consenso desfrutando e exacerbando o natural medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista ou que está se tornando fascista é
contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, portanto, racista por definição.

6. O Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica por que uma das características dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. Em nosso tempo, em que os velhos “proletários” estão se transformando em pequena burguesia (e o lumpesinato se auto exclui da cena política), o fascismo encontrará nessa nova maioria seu auditório.

7. Xenofobia. Para os que se vêem privados de qualquer identidade social, o UrFascismo diz que seu único privilégio é o mais comum de todos: ter nascido em um mesmo país. Esta é a origem do “nacionalismo”. Além disso, os únicos que
podem fornecer uma identidade às nações são os inimigos. Assim, na raiz da psicologia Ur-Fascista está a obsessão do complô, possivelmente internacional. Os seguidores têm que se sentir sitiados. O modo mais fácil de fazer emergir um complô é fazer apelo à xenofobia.

8. Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo. Devem, contudo, estar convencidos de que podem derrotar o inimigo. Assim, graças a um contínuo deslocamento de registro retórico, os inimigos são, ao mesmo tempo, fortes demais e fracos demais. Os fascismos estão condenados a perder suas guerras, pois são constitutivamente incapazes de avaliar com objetividade a força do inimigo.

9. Para o Ur-Fascismo não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. Logo, o pacifismo é conluio com o inimigo; o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente. Contudo, isso traz consigo um complexo de Armagedon: a
partir do momento em que os inimigos podem e devem ser derrotados, tem que haver uma batalha final e, em seguida, o movimento assumirá o controle do mundo. Uma solução final semelhante implica uma sucessiva era de paz, uma
Idade de Ouro que contestaria o princípio da guerra permanente. Nenhum líder fascista conseguiu resolver essa contradição.

10. O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática. No curso da história, todos os elitismos aristocráticos e militaristas implicaram o desprezo pelos fracos. O Ur-Fascismo não pode deixar de pregar um “elitismo popular”. No momento em que o grupo é organizado hierarquicamente (segundo um modelo militar), qualquer líder subordinado despreza seus subalternos e cada um deles despreza, por sua vez, os seus subordinados. Tudo isso reforça o sentido de elitismo de massa.

11. Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói. Em qualquer mitologia, o “herói” é um ser excepcional, mas na ideologia Ur-Fascista o heroísmo é a norma. Este culto do heroísmo é estreitamente ligado ao culto da morte: não é por acaso que o mote dos falangistas era: “Viva la muerte!”. À gente normal diz-se que a morte é desagradável, mas é preciso enfrentá-la com dignidade; aos crentes, diz-se que é um modo doloroso de atingir a felicidade sobrenatural. O herói Ur-Fascista, ao contrário, aspira à morte, anunciada como a melhor recompensa para uma vida heroica. O herói Ur-Fascista espera impacientemente pela morte. E sua impaciência, é preciso ressaltar, consegue na maior parte das vezes levar os outros à morte.

12. Como tanto a guerra permanente como o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o Ur-Fascista transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Esta é a origem do machismo (que implica desdém pelas mulheres e uma condenação
intolerante de hábitos sexuais não-conformistas, da castidade à homossexualidade).

13. O Ur-Fascismo baseia-se em um “populismo qualitativo”. Em uma democracia, os cidadãos gozam de direitos individuais, mas o conjunto de cidadãos só é dotado de impacto político do ponto de vista quantitativo (as decisões da maioria são acatadas). Para o Ur-Fascismo os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos e “o povo” é concebido como uma qualidade, uma entidade monolítica que exprime “a vontade comum”. Como nenhuma quantidade de seres humanos pode ter uma vontade comum, o líder apresenta-se como seu intérprete. Tendo perdido seu poder de delegar, os cidadãos não agem, são chamados apenas pars pro toto, para assumir o papel de povo. O povo é, assim, apenas uma ficção teatral. Para ter um bom exemplo de populismo qualitativo, não precisamos mais da Piazza Venezia ou do estádio de
Nuremberg.

Em nosso futuro desenha-se um populismo qualitativo, TV ou internet, no qual a resposta emocional de um grupo selecionado de cidadãos pode ser apresentada e aceita como a “voz do povo”. Em virtude de seu populismo qualitativo, o UrFascismo deve opor-se aos “pútridos” governos parlamentares. Uma das primeiras frases pronunciadas por Mussolini no Parlamento italiano foi: “Eu poderia ter transformado esta assembleia surda e cinza em um acampamento
para meus regimentos”. De fato, ele logo encontrou alojamento melhor para seus regimentos e pouco depois liquidou o Parlamento. Cada vez que um político põe em dúvida a legitimidade do Parlamento por não representar mais a “voz do
povo”, pode-se sentir o cheiro de Ur-Fascismo.

14. O Ur-Fascismo fala a “novilíngua”. A “novilíngua” foi inventada por Orwell em 1984, como língua oficial do Ingsoc, o Socialismo Inglês, mas certos elementos de Ur-Fascismo são comuns a diversas formas de ditadura. Todos os textos escolares nazistas ou fascistas baseavam-se em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico. Devemos, porém estar prontos a identificar outras formas de novilíngua, mesmo quando tomam a forma inocente de um talk-show popular.

O fascismo nunca acabou, e o problema maior é a construção da alienação social crescente, por conta da manipulação, particularmente através do rádio, da tv e da internet, cujo controle, pela direita, é consequência de mais um assalto que faz continuamente às ondas eletromagnéticas. Com fascista, recomenda-se que não se discuta. A atitude adequada, diante de um fascista, é isolá-lo do povo. Fascista é para ser isolado, porque a primeira regra para combater o fascismo é evitar que ele se instale na sociedade, pois, para revertê-lo, após se instalar, é sempre muito difícil, a não ser que se faça uso da violência das armas, naturalmente com grande sacrifício para os setores mais desprotegidos da sociedade.

Some-se a isso, a manutenção da moeda do assalto, isto é, o dólar, papel pintado de referência das trocas internacionais, que dá aos EUA um poder político destoante do poder econômico real que detém no mundo, o que o obriga a tornar o sistema financeiro o condutor do mundo para o abismo. Ao trafegar nas nuvens, à espera de que a próxima bolha a explodir não leve consigo o capitalismo, tentam impor ao mundo, com a exacerbação do sacrifício daqueles que o mantêm funcionando, a saber, os trabalhadores, na produção real de bens palpáveis, sustentando banqueiros e rentistas
que lhes tiram todos os direitos.

A exacerbação do fascismo no mundo se deve a essa que é a única oportunidade para que os donos do capital improdutivo, isto é, o capital financeiro, possam se beneficiar, cada vez mais e impunemente, da alienação popular que, enganada pela mídia, tende a depositar toda sua confiança no duce ou chefe absoluto, que manda na imprensa e dirige discricionariamente o Estado, em nome do capital financeiro. A característica principal, perseguida pelo Estado fascista, é ter um chefe com carisma suficiente para conquistar os indivíduos, que aceitam ser diluídos no Estado, perdendo todas as vontades, completamente despersonalizados e absolutamente apequenados, para usar a palavra da moda.

¹ Professor Titular aposentado da UFBA e membro do Conselho Curador da Fundação Anísio Teixeira. Estudioso da vida e obra de Anísio Teixeira, tem mais de cem artigos publicados sobre o educador, além de dois livros: Anísio Movimento (Biblioteca Básica Brasileira, Senado Federal, 2002) e Anísio Teixeira e a Cultura (edição conjunta da EDUFBA e da EDUnB, 2014).

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